O jogo patológico, também conhecido como transtorno do jogo, é uma condição de dependência comportamental que vem crescendo em escala global, especialmente com o avanço dos jogos online e das plataformas de apostas esportivas, conhecidas como “bets”. Pesquisadores como Potenza, Whelan, Grant, Bowden-Jones eHodgins têm se dedicado ao entendimento dos mecanismos neurobiológicos e comportamentais envolvidos nesse tipo de vício, revelando sua rápida instalação e complexidade clínica.
No Brasil, a recente expansão do mercado de apostas online acende um alerta para um problema de saúde pública em formação, ainda carente de regulação, controle e educação preventiva.

O Funcionamento Biológico e Químico dos Jogos de Azar
Os jogos de azar ativam de forma intensa o sistema de recompensa cerebral, especialmente o núcleo accumbens, onde ocorre a liberação de dopamina, o neurotransmissor responsável pela sensação de prazer. Assim como nas dependências químicas, o reforço positivo imediato dos jogos cria um padrão de busca compulsiva por prazer.
Além disso, os jogos operam com base em reforço intermitente variável — a imprevisibilidade dos resultados mantém o jogador preso ao ciclo de tentativa e expectativa de ganho. Com o tempo, ocorre tolerância (necessidade de jogar mais para obter o mesmo prazer) e abstinência emocional (sofrimento intenso ao parar de jogar), como apontam os estudos de Potenza e Grant.
Este tema será trabalhado com maior profundidade no encontro com Renata Brasil que ocorrerá no dia dia 06 de Dezembro como parte do Programa de MasterClasses da Wainer, lançado na última semana. Na MasterClass, Renata Brasil irá abordar as novas adicções, como jogos on-line, celular, internet e pornografia.

O Funcionamento Comportamental e Cognitivo
Comportamentalmente, o jogo se sustenta por um ciclo de condicionamento operante, onde pequenas vitórias e a esperança do “grande prêmio” reforçam o comportamento. Há também uma série de viéses cognitivos, como a ilusão de controle, em que o jogador acredita poder prever ou influenciar resultados aleatórios, e o chasing — comportamento de continuar jogando para recuperar perdas, aprofundando o ciclo do vício.
Segundo Whelan e Hodgins, esse conjunto de distorções cognitivas e reforço intermitente transforma o jogo em uma experiência altamente viciante e de difícil reversão, mesmo quando o jogador reconhece racionalmente os danos.

Por Que o Jogo Vicia Rápido e é Difícil de Reverter
A velocidade do reforço, o acesso irrestrito aos jogos online, a privacidade da prática e o apelo emocional tornam o jogo patológico um vício de rápida instalação. A pessoa sente alívio do tédio, da ansiedade e do estresse quando joga, reforçando o comportamento. Quando surgem as perdas financeiras, já existe uma dependência emocional e biológica significativa.
Muitos jogadores só buscam ajuda quando já enfrentam endividamento severo, quebra de relacionamentos, comprometimento laboral ou ideação suicida. Como alerta Bowden-Jones, o jogo é uma dependência sem substância, mas com consequências igualmente devastadoras.

Por Que o Jogo Vicia Rápido e é Difícil de Reverter
A crescente liberação de apostas esportivas no Brasil sem uma estrutura regulatória clara representa um grave risco social, especialmente para jovens e pessoas de baixa renda. O marketing massivo, a ausência de políticas públicas de prevenção e a romantização da figura do apostador reforçam a ideia de lucro fácil.
A experiência internacional mostra que, onde há liberação irrestrita do jogo, há também aumento de:
- Endividamento familiar;
- Criminalidade financeira;
- Violência doméstica;
- Suicídios relacionados a perdas financeiras.
No Brasil, autores como Dartiu Xavier da Silveira e Maria Paula Magalhães Oliveira já vêm alertando para a necessidade de políticas públicas de prevenção e tratamento para dependências comportamentais.
Conclusão: Um Problema de Saúde Pública em Expansão
O jogo patológico é um transtorno mental reconhecido, com base neurobiológica e comportamental comprovada. A liberação desenfreada de apostas no Brasil sem um plano robusto de regulação, prevenção e tratamento pode resultar em uma crise de saúde pública silenciosa e crescente.
É urgente que o Estado brasileiro, profissionais de saúde mental e a sociedade civil se mobilizem para promover educação sobre os riscos do jogo, regulamentação rigorosa do setor e acesso a tratamento especializado. A experiência de outros países mostra que, sem essa estrutura, o custo humano e social do jogo patológico pode ser altíssimo.
Referências
BOWDEN-JONES, Henrietta. Working with Problem Gamblers: A Clinical Guide. Routledge, 2020.
GRANT, Jon E.; CHAMBERLAIN, Samuel R. Gambling Disorder: A Clinical Guide to Treatment. American Psychiatric Publishing, 2016.
HODGINS, David C.; STEA, Jonathan N. Cognitive-Behavioral Treatment for Problem Gambling: A Clinical Toolkit. Elsevier, 2018.
POTENZA, Marc N. Neurobiology of Gambling Disorders. In: Handbook of Clinical Neurology, v. 125, 2014.
WHELAN, James P. et al. Journal of Gambling Studies. Springer, diversos volumes.
SILVEIRA, Dartiu Xavier da; OLIVEIRA, Maria Paula M. T. de. Aspectos Clínicos do Jogo Patológico no Brasil. Estudos e Pesquisas em Psicologia, 2015.





